1 de setembro de 2015

Jefté sacrificou sua filha?


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Este capítulo faz parte da obra: “Exegese de Textos Difíceis da Bíblia”, ainda em construção.
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Outro texto tão controverso quanto o anterior é o que narra o voto que Jefté fez caso vencesse uma batalha. O contexto é este:

“E Jefté fez este voto ao Senhor: ‘Se entregares os amonitas nas minhas mãos, aquele que vier saindo da porta da minha casa ao meu encontro, quando eu retornar da vitória sobre os amonitas, será do Senhor, e eu o oferecerei em holocausto’. Então Jefté foi combater os amonitas, e o Senhor os entregou nas suas mãos. Ele conquistou vinte cidades, desde Aroer até as vizinhanças de Minite, chegando a Abel-Queramim. Assim os amonitas foram subjugados pelos Israelitas. Quando Jefté chegou à sua casa em Mispá, sua filha saiu ao seu encontro, dançando ao som de tamborins. E ela era filha única. Ele não tinha outro filho ou filha. Quando a viu, rasgou suas vestes e gritou: ‘Ah, minha filha! Estou angustiado e desesperado por tua causa, pois fiz ao Senhor um voto que não posso quebrar’. ‘Meu pai’, respondeu ela, ‘sua palavra foi dada ao Senhor. Faça comigo o que prometeu, agora que o Senhor o vingou dos seus inimigos, os amonitas’. E prosseguiu: ‘Mas conceda-me dois meses para vagar pelas colinas e chorar com as minhas amigas, porque jamais me casarei’. ‘Vá!’, disse ele. E deixou que ela fosse por dois meses. Ela e suas amigas foram para as colinas e choraram porque ela jamais se casaria. Passados os dois meses, ela voltou a seu pai, e ele fez com ela o que tinha prometido no voto. Assim, ela nunca deixou de ser virgem. Daí vem o costume em Israel de saírem as moças durante quatro dias, todos os anos, para celebrar a memória da filha de Jefté, o gileadita” (Juízes 11:30-40)

Novamente, duas linhas de interpretação têm sido propostas sobre o caso. A primeira é a leitura natural do texto: Jefté sacrificou sua filha em holocausto. A segunda é aquela que Paulo de Aragão Lins chamou de “exegetas medrosos”[1], que afirmam que Jefté apenas fez um “holocausto da virgindade”(?) da moça, impedindo ela de ter filhos por toda a vida.

Linha 1
Linha 2
Jefté sacrificou sua filha literalmente
Jefté “sacrificou” apenas a virgindade da filha
Vamos à análise do texto.

Em primeiro lugar, uma pesquisa bíblica simples sobre o termo “holocausto” (`olah) no Antigo Testamento nos mostra que, embora ele apareça nada a menos que 289 vezes nas páginas da Bíblia, nunca, em parte alguma, tem o significado de “sacrificar a virgindade”, ou de deixar a pessoa em estado de virgindade perpétua, sem poder se casar com alguém. Essa palavra significa primordialmente “oferta queimada”[2], e sempre quando aparece em contextos como esse diz respeito a algo que foi de fato sacrificado, morto em holocausto.

É essa mesma palavra que sempre ocorre nas muitíssimas passagens veterotestamentárias que falam de holocaustos de animais no templo (ex: Lv.1:4,6,17; 4:24,30; 9:2; 15:30; Nm.7:51,75; 15:5;24; Dt.27:6, etc), os quais eram sempre mortos. É essa mesma palavra também que aparece quando Noé ofereceu um holocausto ao Senhor de alguns animais puros depois do dilúvio (Gn.8:20), e quando Abraão ia sacrificar Isaque (Gn.22:2). Simplesmente não há qualquer razão exegética para pensar que em Juízes 11 o autor tenha empregado um termo hebraico que sempre significou sacrifício com morte, para dá-lo repentinamente um sentido completamente novo, para significar algo totalmente oposto ao seu significado fixo e recorrente nas Escrituras.

Em segundo lugar, a análise do sentido também torna bastante improvável a interpretação da Linha 2. Isso porque é completamente irracional supor que Jefté ficaria tão terrivelmente amargurado e destruído por dentro caso tudo o que estivesse em jogo fosse tão-somente a virgindade da sua filha. Note como a reação dele transmite algo muito mais profundo do que isso:

“...quando a viu, rasgou suas vestes e gritou: ‘Ah, minha filha! Estou angustiado e desesperado por tua causa, pois fiz ao Senhor um voto que não posso quebrar’” (v. 35)

Mas o que torna definitivamente absurdo que o voto de Jefté tenha sido relacionado à virgindade é que ele não fez o voto pensando em uma pessoa em particular, e nem em um grupo específico de pessoas jovens, mas sim a qualquer pessoa que fosse a primeira a vir até ele, ao voltar da batalha. Observe o que Jefté diz:

“...aquele que vier saindo da porta da minha casa ao meu encontro, quando eu retornar da vitória sobre os amonitas, será do Senhor, e eu o oferecerei em holocausto” (v. 31)

Ou seja: qualquer pessoa que fosse a primeira a sair ao seu encontro seria sacrificada em holocausto. O voto não foi feito especificamente em relação à sua filha, tanto é que quando ele viu que quem veio foi sua filha ele ficou desesperado. Mas se o voto se relacionava a qualquer pessoa hipoteticamente, seria absurdo que dissesse respeito à virgindade, primeiro porque ele sequer teria condições de garantir que essa pessoa fosse virgem (poderia ser qualquer adulto ou velho que viesse até ele!), e segundo porque ele também não teria absolutamente condição nenhuma de garantir que este voto fosse cumprido. Como ele poderia garantir que a pessoa “sacrificada” não voltaria a fazer sexo nunca mais? Impossível. Isso estaria totalmente fora do seu alcance, tornando seu voto completamente inútil.

O terceiro aspecto que torna absurda a tese da virgindade é o cumprimento do voto. Observe atentamente o que diz o verso 39:

“...passados os dois meses, ela voltou a seu pai, e ele fez com ela o que tinha prometido no voto” (v. 39)

A expressão “ele fez com ela” o que tinha prometido passa nitidamente a ideia de um ato em si, realizado em um momento específico. Não teria qualquer sentido uma expressão como essa ter sido empregada para o fato dela jamais ter relações sexuais, visto que tal coisa não envolve um ato específico praticado por Jefté, mas apenas uma atitude contínua de abstinência por parte da moça. Se o texto diz que Jefté a sacrificou depois de passados os dois meses, é porque ela morreu mesmo.

Por fim, a parte final do relato não deixa absolutamente dúvida alguma sobre a natureza do sacrifício, pois diz:

“...daí vem o costume em Israel de saírem as moças durante quatro dias, todos os anos, para celebrar a memória da filha de Jefté, o gileadita” (vs. 39-40)

É óbvio que quem “celebra a memória” de alguém, só celebra porque a pessoa morreu. E também não teria lógica alguma que todos os anos as moças de Israel mantivessem um costume de quatro dias de luto por alguém que simplesmente não teve filhos com ninguém – o que era bastante comum na época, especialmente para as mulheres estéreis. Quem em sã consciência celebraria a memória de alguém que está vivo, e todos os anos ficaria de luto por algo tão natural? 

Diante de tantas evidências inegáveis de que Jefté sacrificou sua filha, o que faz com que existam tantos numerosos “exegetas medrosos”, que sustentam a Linha 2? Duas coisas. A primeira é que a menina demonstrou uma grande tristeza porque nunca mais se casaria (vs.37-38), e daí os “exegetas” da Linha 2 presumem que o sacrifício foi apenas da virgindade, ainda que o texto não diga isso em absolutamente lugar nenhum. Diante do contexto, a razão pela qual a moça ficou tão triste por não se casar não é porque o sacrifício era apenas de casamento, mas porque ela morreria, e de fato alguém que morre não se casa! Presumivelmente, a moça tinha um grande desejo de se casar, e este sonho foi destruído ao saber que seria sacrificada em holocausto pelo seu próprio pai.

A segunda razão pela qual os exegetas da Linha 2 tentam suavizar e torcer o texto bíblico é porque o sacrifício humano era proibido em Israel. No entanto, nem sempre o povo israelita obedecia as ordens do Senhor. Algumas vezes eles chegavam a oferecer seus filhos em sacrifício a Moloque, assim como os pagãos faziam (Lv.20:2; v. tb. 2Cr.28:3). O problema é maior porque aqui não estamos falando de uma pessoa ímpia, mas de um justo. No entanto, pessoas justas na Bíblia não eram perfeitas, e há numerosos relatos onde os maiores personagens bíblicos cometem os mais terríveis atos.

Davi cometeu adultério com Bate-Seba e, como se não bastasse, mandou matar o marido dela, Urias, colocando-o na linha de frente de uma batalha corpo-a-corpo. Mesmo assim, ele é descrito como alguém que tinha o “coração totalmente dedicado ao Senhor” (1Rs.11:4), a despeito de seus pecados. Assim como o adultério e assassinato de Davi, o sacrifício de Jefté não foi ordenado por Deus. Jeová jamais pediu qualquer tipo de sacrifício humano, exceto no caso de Isaque, quando o plano era claramente de colocar a fidelidade de Abraão à prova, e não de sacrificar Isaque. A culpa no episódio não recai sobre Deus, mas sobre Jefté. Foi Jefté que agiu contra os princípios do Senhor e, pensando estar fazendo um bem, estava cometendo um ato insano e terrível. A Bíblia somente descreve – e não prescreve – a atitude de Jefté.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (www.lucasbanzoli.com)


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[1] Paulo de Aragão Lins. O que a Bíblia não diz... mas muitos pregadores e mestres dizem.
[2] Concordância de Strong, 5930.

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