15 de julho de 2014

Comentário de Mateus 5

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. E quando [Jesus] viu as multidões, subiu a um monte; e sentando-se, achegaram-se a ele os seus discípulos.
2. Então ele abriu sua boca e lhes ensinou, dizendo:
3. Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos céus.
4. Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
5. Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.
6. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados.
7. Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.
8. Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.
9. Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus.
10. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus.
11. Bem-aventurados sois vós, quando vos insultarem, perseguirem, e mentirem, falando contra vós todo mal por minha causa.
12. Jubilai e alegrai-vos, porque grande é vossa recompensa nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós.
13. Vós sois o sal da terra; mas se o sal perder seu sabor, com que se salgará? Para nada mais presta, a não ser para se lançar fora, e ser pisado pelas pessoas.
14. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade fundada sobre o monte;
15. Nem se acende a lâmpada para se pôr debaixo de um cesto, mas sim na luminária, e ilumina a todos quantos estão na casa.
16. Assim brilhe vossa luz diante das pessoas, para que vejam vossas boas obras, e glorifiquem ao vosso Pai, que está nos céus.
17. Não penseis que vim para revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas sim para cumprir.
18. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota nem um til passará da Lei até que tudo aconteça.
19. Portanto qualquer um que desobedecer a um destes menores mandamentos, e assim ensinar às pessoas, será chamado o menor no Reino dos céus; porém qualquer que [os] cumprir e ensinar, esse será chamado grande no Reino dos céus.
20. Porque eu vos digo que se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, de maneira nenhuma entrareis no Reino dos céus.
21. Ouvistes o que foi dito aos antigos: “Não cometerás homicídio”; “mas qualquer um que cometer homicídio será réu do julgamento”.
22. Porém eu vos digo que qualquer um que se irar contra seu irmão sem razão será réu do julgamento. E qualquer um que disser a seu irmão: “Idiota!” será réu do tribunal. E qualquer que [lhe] disser: “Louco!” será réu do fogo do inferno.
23. Portanto, se trouxeres tua oferta ao altar, e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti,
24. Deixa ali tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, e então vem oferecer a tua oferta.
25. Faze acordo depressa com teu adversário, enquanto estás com ele no caminho, para não acontecer que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te lancem na prisão.
26. Em verdade te digo que não sairás dali enquanto não pagares a última moeda.
27. Ouvistes o que foi dito aos antigos: “Não adulterarás”.
28. Porém eu vos digo que qualquer um que olhar para uma mulher para a cobiçar, em seu coração já adulterou com ela.
29. Se o teu olho direito te faz pecar, arranca-o e lança-o de ti; porque é melhor para ti que um dos teus membros se perca do que o teu corpo todo seja lançado no inferno.
30. E se a tua mão direita te faz pecar, corta-a e lança-a de ti; porque é melhor para ti que um dos teus membros se perca do que o teu corpo todo seja lançado no inferno.
31. Também foi dito: “Qualquer um que deixar sua mulher, dê a ela carta de divórcio”.
32. Porém eu vos digo que qualquer um que se divorciar de sua mulher, a menos que seja por causa de pecado sexual, faz com que ela adultere; e qualquer um que se casar com a divorciada comete adultério.
33. Também ouvistes que foi dito aos antigos: “Não jurarás falsamente”, “mas cumprirás ao Senhor os teus juramentos”.
34. Porém eu vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus;
35. Nem pela terra, porque é o suporte de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei.
36. Nem por tua cabeça jurarás, pois nem sequer um cabelo podes tornar branco ou preto.
37. Mas seja vosso falar: “sim”, “sim”, “não”, “não”; porque o que disso passa procede do maligno.
38. Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho, e dente por dente”.
39. Mas eu vos digo que não resistais a quem for mau; em vez disso, a qualquer um que te bater à tua face direita, mostra-lhe também a outra.
40. E ao que quiser disputar contigo, e te tomar tua túnica, deixa-lhe também a capa.
41. E se qualquer um te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
42. Dá a quem te pedir; e não te desvies de quem quiser de ti tomar emprestado.
43. Ouvistes o que foi dito: “Amarás teu próximo”, e “odiarás teu inimigo”.
44. Porém eu vos digo: amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem,
45. Para que sejais filhos de vosso Pai que está nos céus; porque ele faz seu sol sair sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos.
46. Pois se amardes os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem os cobradores de impostos também o mesmo?
47. E se saudardes somente os vossos irmãos, o que fazeis de mais? Não fazem os cobradores de impostos também assim?
48. Portanto, sede vós perfeitos, assim como vosso Pai que está nos céus é perfeito.




5.4 os que choram. Diferente de algumas igrejas que ensinam que o crente tem que sempre estar alegre e “vencendo”, Jesus afirma que os bem-aventurados são os que choram, mostrando que a vida do cristão aqui na terra não tende a ser nenhuma maravilha, materialmente falando. Não é sem razão que para esta vida somos considerados "os mais dignos de lástima" (1Co.15:19).

5.5 herdarão a terra. Em conformidade com o parecer unânime do AT (Sl.37:9; 37:11; 37:13; 37:22; 37:29; Is.65:17), Jesus diz que os salvos herdarão a terra, e não o Céu. A eternidade será na “nova terra”, que é o que os cristãos esperam (2Pe.3:13). A nossa morada – a Nova Jerusalém – está nos céus (Fp.3:20), mas ela descerá à nova terra após o milênio (Ap.21:2), de modo que o tabernáculo de Deus estará entre os homens (Ap.21:3). Assim, o Reino que hoje está nos céus (Reino dos céus) descerá à terra, ele virá a nós. É por isso que dizemos na oração do Pai nosso que “venha o teu Reino” (Mt.6:10), que os judeus esperavam o Reino de Deus chegar (Mc.15:43) e que o próprio Senhor Jesus disse que não beberia outra vez do fruto da videira até que viesse o Reino de Deus (Lc.22:18). O Reino de Deus, que hoje está “próximo” (Lc.10:9; 10:11; 21:31; Mc.10:15), será estabelecido na nova terra após o milênio (Ap.21:1-3). A ideia de que passaremos a eternidade no Céu é estranha às Escrituras, que não ensinam um conto de fadas onde espíritos flutuam nas nuvens do Céu tocando flautas, perseguindo nuvens e bebendo leite de ambrósia, mas sim um realismo bíblico onde a vida futura se dá através da ressurreição de um corpo físico, para habitar em uma nova terra física, embora transformada do pecado e dos pecadores.

5.11-12 A perseguição e os ataques externos são considerados bons não apenas por causa da recompensa futura, mas porque ela mostra que o trabalho que está sendo feito é algo significativo. Assim como ninguém chuta um cão morto, ninguém dá tanta importância a alguém que está fazendo um trabalho mal feito, ao ponto de ter que persegui-lo. É por isso que os que não fazem nada não sofrem nenhum tipo de perseguição, e que aqueles que mais se esforçam são os mais perseguidos. A própria vida de Jesus é um exemplo de rejeição e martírio, assim como a de Paulo (2Co.1:4-11; 11:24-33) e a dos demais apóstolos. Quem tem que ter medo é quem não é perseguido – alguma coisa deve estar errada, seja ela um trabalho mal feito ou um trabalho não feito.

5.13 A analogia com o sal que pode perder o seu sabor mostra que o crente pode perder a salvação. O sal é algo bom, uma representação dos cristãos regenerados, que são aqueles que levam a Palavra ao mundo. Os não-regenerados não são “sal” nem tem nenhum sabor a perder. Mas estes que são sal podem perder o seu sabor e serem por fim lançados fora, para serem pisados pelos homens. Essa é uma referência ao texto de Malaquias 4:1-3, onde os que são lançados fora e pisados são os ímpios, que serão condenados no dia do juízo.

5.14-16 Uma lâmpada colocada debaixo de um cesto é tão inútil quanto um cristão que não produz nada, que não evangeliza e que não é um exemplo de conduta e moral.

5.17-19 Este discurso de Jesus foi feito enquanto a lei ainda vigorava, e ele mesmo cumpriu rigorosamente os preceitos da lei até a morte. Foi somente após a morte de Cristo que teve início o tempo da graça, a Nova Aliança, onde não estamos mais debaixo da lei. Jesus não veio para revogar a lei, mas para cumpri-la, pois ele é o cumprimento da lei, e com a sua morte a lei foi plenamente cumprida, chegando ao fim. Paulo disse que “antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada. Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor” (Gl.3:23-25). Ele também disse que a justiça de Deus é “independente da lei” (Rm.3:21), que “se os que vivem pela lei são herdeiros, a fé não tem valor, e a promessa é inútil” (Rm.4:14), que nós “não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça” (Rm.6:14), que nós “morremos para a lei” (Rm.7:4), que “o fim da lei é Cristo, para a justificação de todo o que crê” (Rm.10:4), que “fomos libertados da lei, para que sirvamos conforme o novo modo do Espírito, e não segundo a velha forma da lei escrita” (Rm.7:6), que “eu mesmo não estou debaixo da lei” (1Co.9:20), que “por meio da lei eu morri para a lei, a fim de viver para Deus” (Gl.2:19), que “os que são pela prática da lei estão debaixo de maldição” (Gl.3:10), que “se vocês são guiados pelo Espírito, não estão debaixo da lei” (Gl.5:18) e que Cristo “anulou em seu corpo a lei dos mandamentos expressa em ordenanças” (Ef.2:15).

5.18 nem um jota nem um til passará da lei. Embora a lei em si não passe, a forma de se ver a lei muda-se da antiga para a nova aliança. Não é a lei que passou, mas a antiga forma de se ver a lei. O autor de Hebreus disse que “a lei traz apenas uma sombra dos benefícios que hão de vir, e não a realidade dos mesmos. Por isso ela nunca consegue, mediante os mesmos sacrifícios repetidos ano após ano, aperfeiçoar os que se aproximam para adorar” (Hb.10:1). Assim sendo, a antiga aliança vê a lei sob uma sombra, enquanto a nova aliança tira o véu e a vê em sua plenitude, onde as questões cerimoniais da lei são apenas sombras daquilo que foi cumprido em Cristo. Por exemplo, não temos mais a obrigação de sacrificar cordeiros pascais (esta lei era uma sombra, e não estamos mais debaixo dela), porque temos a revelação completa, que é o sacrifício expiatório de Cristo, que cumpre essa figura da lei. Não há, portanto, nenhuma contradição entre Jesus e Paulo na questão da lei, e nenhuma obrigação de observar a lei da maneira judaica.

5.23-24 O princípio exposto aqui por Cristo é o de que de nada adianta ofertar, se não houver perdão. A oferta só é válida e aceitável diante de Deus se a vida interior de quem oferta estiver em ordem. Jesus primeiro deseja a limpeza interior do coração, colocando as ofertas em segundo plano – embora alguns preguem tanto sobre dinheiro que parece que as ofertas são o que há de mais importante.

5.26 não sairás dali enquanto não pagares a última moeda. Este local temporário de punição pelos pecados não é o purgatório, pela simples razão de que o purgatório confronta fortemente o sentido das Escrituras. João disse que “o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado” (1Jo.1:7), e não apenas dos pecados maiores, como se os pecados menores fossem purgados pelo purgatório. Além disso, Paulo diz que quem pratica “as inimizades, as contendas, os ciúmes, as iras, as facções, as dissensões, os partidos, as invejas, as bebedices, as orgias, e coisas semelhantes a estas, contra as quais vos previno, como já antes vos preveni, que os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus” (Gl.5:20-21). Ele não diz que as pessoas que praticarem tais pecados que a Igreja de Roma considera “menores” seriam salvos passando pelo purgatório, mas que não herdariam o Reino de Deus. Biblicamente, portanto, os pecados menores também são suficientes para levar à perdição, se não houver o arrependimento. O purgatório não é apenas inútil, mas é uma grave ofensa e blasfêmia contra a suficiência do sangue de Cristo e sua obra de expiação, pois faz do homem o redentor de si mesmo, expiando os seus próprios pecados, ao invés da salvação pela fé, onde todos os nossos pecados são expiados exclusivamente por Cristo, que por essa mesma razão é o nosso único salvador (At.4:12). Este local de punição temporária, portanto, diz respeito ao geena (popularmente conhecido como “inferno”), onde cada condenado pagará pelos seus pecados até pagar o último centavo, antes de sua definitiva aniquilação (2Pe.2:6; Ml.4:1-3; Hb.10:27; Sl.37:9,10,20,22,38).

5.29 O texto mostra até que ponto o pecado é grave e pode comprometer a salvação do cristão. Diferente da teologia liberal, que relativiza o pecado e declara que crentes que pecam deliberadamente possam estar salvos, Cristo diz que até o desejo de adultério no interior do coração é suficiente para levar uma pessoa ao geena (inferno). É por isso que entendemos a gravidade do pecado e a necessidade de lutar diariamente contra a carne, em favor de uma santidade completa, “sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb.12:14).

5.30 o teu corpo todo seja lançado no inferno. É o corpo, com suas partes (incluindo mãos e olhos, como diz o texto), que perece no inferno (depois da ressurreição corporal), e não um espírito incorpóreo, como na mitologia grega.

5.32 a menos que seja por causa de pecado sexual. O “pecado sexual” é apresentado como sendo uma cláusula de exceção à regra sobre o divórcio e consequente adultério. O termo no original grego, porneia, significa relação sexual ilícita, adultério, fornicação, homossexualismo ou incesto (Strong, 4202). Paulo incluiria mais tarde pelo menos outras duas cláusulas onde a pessoa está livre para se casar com outra, sendo elas a morte do cônjuge (1Co.7:39) e quando é o descrente que decide se separar (1Co.7:15).

5.45 ele faz seu sol sair sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos. Diferente da teologia triunfalista, onde somente os crentes recebem as bênçãos e os descrentes as maldições, Cristo diz que o sol e a chuva (providências de Deus necessárias para a sobrevivência) descem sobre todos, e não somente sobre os justos. Não é aqui nesta terra que haverá a distinção e retribuição de justos e ímpios, mas na nova terra, na vida eterna. Aqui nós apenas semeamos o que colheremos no futuro. É como em uma prova de vestibular. Enquanto os alunos estão fazendo a prova, todos estão sob as mesmas condições. Todos têm as mesmas perguntas para responder, e os que serão aprovados não têm nenhuma vantagem ou privilégio sobre outros, como acesso a computador, mais tempo para fazer a prova, consulta aos universitários, placas ou passar a vez. A devida retribuição para o aluno que estudou e que foi aprovado é o resultado, quando um entrará na Universidade e o outro ficará de fora.

A vida espiritual é a mesma coisa. Todos nós estamos neste momento fazendo essa prova. De fato, estamos sendo testados a todo instante. Todos os dias temos que lutar contra as tentações, resistir aos desejos da carne, demonstrar empenho no estudo da Palavra, na oração, na busca a Deus, no bom tratamento com o próximo, e nós estamos nas mesmas condições daqueles que não fazem nada disso. Mas o resultado das nossas ações, com a devida retribuição, virá na ressurreição. A salvação é como a aprovação no vestibular, e a vida eterna é como a entrada na Universidade. É a partir de então que aquele que foi aprovado desfrutará das vantagens sobre aquele que não foi. Não é enquanto ainda estamos fazendo a prova.

5.48 sede perfeitos. Cristo não está dizendo que é possível ser literalmente perfeito enquanto estivermos na terra (somente ele foi), mas sim que a perfeição é o alvo da fé. Assim como um corredor vê na linha de chegada seu objetivo final, o verdadeiro cristão vê na perfeição seu padrão de conduta, e condiciona sua vida para crescer cada vez mais em direção a isso.

Comentário de Mateus 4

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.

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1. Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo.
2. E depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.
3. E o tentador se aproximou dele, e disse: 
Se tu és o Filho de Deus, dize que estas pedras se tornem pães.
4. Mas [Jesus] respondeu: 
Está escrito: 
Não só de pão viverá o ser humano, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.
5. Então o diabo o levou consigo à santa cidade, e o pôs sobre o ponto mais alto do Templo,
6. E disse-lhe: 
Se tu és o Filho de Deus, lança-te abaixo, porque está escrito que: 
Mandará a seus anjos acerca de ti, e te tomarão pelas mãos, para que nunca com teu pé tropeces em pedra alguma.
7. Jesus lhe disse: 
Também está escrito: 
Não tentarás o Senhor teu Deus.
8. Outra vez o diabo o levou consigo a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo, e a glória deles,
9. E disse-lhe: 
Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.
10. Então Jesus disse: 
Vai embora Satanás! Porque está escrito:
Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele cultuarás.
11. Então o diabo o deixou; e eis que chegaram anjos, e o serviram.
12. Mas quando Jesus ouviu que João estava preso, voltou para a Galileia.
13. E deixando Nazaré, veio a morar em Cafarnaum, [cidade] marítima, nos limites de Zebulom e Naftali,
14. Para que se cumprisse o que foi anunciado pelo profeta Isaías, que disse:
15. A terra de Zebulom e a terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, a Galileia dos gentios;
16. O povo sentado em trevas viu uma grande luz; aos sentados em região e sombra da morte, a luz lhes apareceu.
17. Desde então Jesus começou a pregar e a dizer: 
Arrependei-vos, porque perto está o Reino dos céus.
18. Enquanto Jesus andava junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, lançarem a rede ao mar, porque eram pescadores.
19. E disse-lhes: 
Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de gente.
20. Então eles logo deixaram as redes e o seguiram.
21. E passando dali, viu outros dois irmãos: Tiago, [filho] de Zebedeu, e seu irmão João, em um barco, com seu pai Zebedeu, que estavam consertando suas redes; e ele os chamou.
22. E eles logo deixaram o barco e seu pai, e o seguiram.
23. E Jesus rodeava toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, e curando toda enfermidade e toda doença no povo.
24. Sua fama corria por toda a Síria, e traziam-lhe todos que sofriam de algum mal, tendo diversas enfermidades e tormentos, e os endemoninhados, epiléticos, e paralíticos; e ele os curava.
25. E muitas multidões da Galileia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judeia, e dalém do Jordão o seguiam.



4.1 para ser tentado. Jesus não foi levado ao deserto para jejuar, mas para ser tentado. O jejum foi uma ferramenta usada por Cristo para matar a carne e vencer a tentação. Embora alguns comentaristas afirmem que ele só venceu a tentação e jejuou por quarenta dias por ser Deus, o fato é que Jesus venceu a tentação como homem, para servir de exemplo para nós, em nossas próprias tentações. É por isso que nós “não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado” (Hb.4:15). Moisés também jejuou por quarenta dias (Dt.9:9), assim como Elias (1Rs.19:8).

4.3 Comer pão ou fazer um milagre não é pecado, mas Cristo se recusou a fazer isso por duas razões. A primeira é porque ele não quebraria seu propósito de jejum, que ele levava a sério. Se ele se comprometeu a algo, ele cumpriria. A segunda é porque ele não iria se submeter nem por um segundo às ofertas de Satanás, que queria o contrário. O episódio nos revela um forte vínculo da obediência a Deus, que era a questão central de todas as tentações.

4.4 nem só de pão. Jesus coloca o alimento espiritual (Palavra de Deus) acima do alimento físico. Ele podia ficar quarenta dias sem comer, mas não podia ficar um dia sem a presença de Deus.

4.6 pois está escrito. O diabo tentou citar a única regra de fé de Cristo (Escritura) contra ele mesmo, mas de forma isolada e superficial. Jesus o refutou usando a mesma Escritura (v.7).

4.7 se tu és o Filho de Deus. Ele não precisava mostrar para ninguém – muito menos para o diabo – que ele era o Filho de Deus, através de milagres extraordinários. Ele já tinha plena segurança de quem ele era. Sempre quando alguém pedia uma prova milagrosa de que Jesus era o Filho de Deus, ele se recusava a fazer (Mt.12:39; 16:4; Lc.11:29). Os milagres operados por Cristo eram sempre uma generosidade dele em favor de uma pessoa necessitada, e não para mostrar algo a alguém, para único favorecimento pessoal.

4.7 não tentarás o Senhor teu Deus. Esta é a segunda prova implícita da divindade de Cristo. Satanás estava tentando Jesus, e Jesus diz que não se pode tentar Deus. Se Jesus não fosse Deus, este texto não faria o menor sentido. Ele deixa implícito que Jesus é aquele que não se pode tentar – o próprio Deus.

4.9 prostrado. O ato de se prostrar é colocado como sendo um precedente necessário para a adoração. É assim que, historicamente, os pagãos sempre adoraram as imagens. A finalidade da idolatria é sempre a glória de Satanás.

4.10 só a ele cultuarás. Para Jesus, o culto deve ser unicamente a Deus. Não existia ainda a ideia de um cultode latria a Deus e outro culto de dulia aos santos. A própria diferença entre latria e dulia já é em si mesma superficial, pois latria (do latim latreuo) significa servir, e dulia (do latim doulos) significa escravo. Assim, latria consiste em servir e dulia em escravizar-se a alguém (sinônimos). Na Igreja Romana, os fieis são incentivados a “servirem” (latria) a Deus e a serem “escravos” (dulia) dos santos e “super-escravos” (hiperdulia) de Maria. Se existe mesmo uma diferença, é em favor de Maria e dos santos (dulia).

4.17 arrependei-vos. O principal tema da pregação de Jesus era o mesmo de João Batista: o arrependimento. De nada adiantava pregar outras coisas enquanto as pessoas não fossem regeneradas e não decidissem mudar de vida. Era necessário que as pessoas saíssem da morte para a vida para que pudessem entender os demais pontos da fé. Depois do arrependimento, Jesus pregava as demais coisas. V. nota em Mt.3:2.

4.19 pecadores de homens. Assim como nenhum pescador tinha que esperar o peixe vir até eles, mas eram eles que lançavam as redes atrás dos peixes (v.18), nós (cristãos) que temos a incumbência de ir atrás dos perdidos (Mc.16:15), ao invés de esperarmos passivamente que eles venham às nossas igrejas. 

Comentário de Mateus 3

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. E naqueles dias veio João Batista, pregando no deserto da Judeia,
2. E dizendo: 
Arrependei-vos, porque perto está o Reino dos céus.
3. Porque este é aquele que foi declarado pelo profeta Isaías, que disse: 
Voz do que clama no deserto: 
Preparai o caminho do Senhor; endireitai suas veredas.
4. Este João tinha sua roupa de pelos de camelo e um cinto de couro ao redor de sua cintura, e seu alimento era gafanhotos e mel silvestre.
5. Então vinham até ele [moradores] de Jerusalém, de toda a Judeia, e de toda a região próxima do Jordão;
6. E eram por ele batizados no Jordão, confessando os seus pecados.
7. Mas quando ele viu muitos dos fariseus e dos saduceus que vinham a seu batismo, disse-lhes: 
Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira futura?
8. Dai, pois, frutos condizentes com o arrependimento.
9. E não imagineis, dizendo em vós mesmos: “Temos por pai a Abraão”, porque eu vos digo que até destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão.
10. E agora mesmo o machado está posto à raiz das árvores; portanto toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo.
11. Realmente eu vos batizo com água para arrependimento, mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; suas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.
12. Ele tem sua pá na mão; limpará sua eira, e recolherá seu trigo no celeiro; mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga.
13. Então Jesus veio da Galileia ao Jordão até João para ser por ele batizado.
14. Mas João lhe impedia, dizendo: 
Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?
15. Porém Jesus lhe respondeu: 
Permite por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. 
Então ele o permitiu.
16. E tendo Jesus sido batizado, subiu logo da água. E eis que os céus se lhe abriram, e ele viu o Espírito de Deus descendo como um pomba, vindo sobre ele.
17. E eis uma voz dos céus, dizendo: 
Este é o meu Filho amado, em quem me agrado.





3.2 arrependei-vos. Arrependimento vem da palavra grega metanoeo, que, diferentemente da crendice popular, não significa uma mera tristeza ou comoção em um momento específico, mas uma completa mudança de mente, que ocorre quando a pessoa decide abandonar os pecados anteriormente cometidos e passar a viver uma vida voltada a Deus. Este arrependimento sincero gera frutos (v.8), que é a mudança de vida que resulta em obras e santidade de nossa parte, quando passamos a lutar contra aquilo que antes praticávamos. É esta mudança que evidencia se o arrependimento foi verdadeiro ou se a mentalidade permanece a mesma que antes, o que seria um mero remorso, que é somente um sentimento de aflição ou tristeza, mas sem uma mudança de mentalidade e de vida posterior. O arrependimento verdadeiro é um precedente necessário à salvação (Lc.13:15).

3.6 confessando os seus pecados. A confissão pública dos pecados era um precedente necessário para o batismo de João. A pessoa primeiro confessava seus pecados, mostrando estar disposta a viver uma vida diferente dali em diante, e somente depois era imersa na água. Isso mostra que o batismo não era por si só suficiente para limpar os pecados, mas limpava os pecados quando a pessoa já havia se arrependido publicamente e decidido mudar de vida. A crença em um batismo purificador sem arrependimento interior é o que leva a enganos como o batismo infantil ou o batismo nos últimos dias de vida, como fez o imperador Constantino, que depois de assassinar seu sogro Maximiniano e seu filho Flavio Crispo decidiu estrategicamente se batizar no final da vida, crendo que aquele batismo em si mesmo seria suficiente para limpá-lo de todos os crimes cometidos durante a vida, mesmo sem se arrepender deles.

3.7 muitos dos fariseus e dos saduceus que vinham a seu batismo. Aqueles fariseus e saduceus vinham ao batismo de João, mas não demonstravam estarem dispostos a mudar de vida. Eles não demonstravam frutos que mostrassem arrependimento (v.8), mas mesmo assim se orgulhavam ostentando o título de “filhos de Abraão” (v.9). Nota-se aqui o contraste entre aqueles que vinham ser batizados confessando seus pecados, se reconhecendo como pecadores e dispostos a mudarem de vida (v.6), com aqueles que vinham com o coração duro, sem frutos e pensando já serem regenerados.

3.9 destas pedras. João Batista estava refutando a ideia oriunda da tradição judaica de que a descendência de Abraão era uma descendência natural, transmitindo a doutrina da descendência espiritual de Abraão, que seria ressaltada muitas vezes por Jesus (Jo.8:39) e por Paulo (Gl.3:9). Ser “filho de Abraão” é fazer as mesmas obras que Abraão fez (Jo.8:39) e viver pela fé em Cristo (Gl.3:6-9), e não meramente ser um israelita.

3.11 ele vos batizará com o Espírito Santo. João diferencia o batismo nas águas do batismo com o Espírito. A primeira ocorrência do batismo com o Espírito Santo foi em Atos 2:2-4, cumprindo a palavra de Jesus, que antes da sua ascensão disse que o Espírito Santo desceria sobre eles (At.1:8). Embora os discípulos já tivessem a presença do Espírito Santo desde quando Cristo soprou sobre eles (Jo.20:22), eles ainda não erambatizados com o Espírito Santo (At.1:8; 2:4). Algo semelhante ocorreu em Atos 19:2-6, quando aqueles cristãos já haviam recebido o batismo nas águas, mas ainda não tinham sido batizados com o Espírito Santo (At.19:2-3). Quando eles foram batizados com o Espírito, passaram a falar em línguas e a profetizar (At.19:6), pois os dons evidenciam o batismo com o Espírito Santo na vida de um convertido. 

3.12 fogo que nunca se apaga. V. nota em Jd.7.

3.13 para ser por ele batizado. Jesus só foi batizado quando já era adulto.

3.16 subiu logo da água. O fato de Jesus ter “subido” da água indica que ele havia imergido nela. No catolicismo romano e em algumas igrejas protestantes, o batismo é feito meramente aspergindo água na cabeça do batizado. Está longe de ser o tipo de batismo que Jesus recebeu.

3.16 viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba. A materialização do Espírito Santo em forma de pomba nesta ocasião indica que o Espírito de Deus não é uma força impessoal, pois algo impessoal (como a sabedoria) não pode se personificar em algo, em sentido literal.

Comentário de Mateus 2

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. E sendo Jesus já nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do oriente a Jerusalém,
2. Dizendo: 
Onde está o Rei nascido dos Judeus? Porque vimos sua estrela no oriente, e viemos para adorá-lo.
3. E o rei Herodes, ao ouvir [isto], ficou perturbado, e com ele toda Jerusalém.
4. E tendo reunido todos os chefes dos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde o Cristo havia de nascer.
5. E eles lhe disseram: 
Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo profeta:
6. E tu Belém, terra de Judá, de maneira nenhuma és a menor entre as lideranças de Judá, porque de ti sairá o Guia que apascentará meu povo Israel.
7. Então Herodes, chamando secretamente os magos, perguntou-lhes com precisão sobre o tempo em que a estrela havia aparecido.
8. E enviando-os a Belém, disse: 
Ide, e investigai cuidadosamente pelo menino; e quando o achardes, avisai-me, para que também eu venha e o adore.
9. Depois de ouvirem o rei, eles foram embora. E eis que a estrela que tinham visto no oriente ia adiante deles, até que ela chegou, e ficou parada sobre onde o menino estava.
10. E eles, vendo a estrela, jubilaram muito com grande alegria.
11. E entrando na casa, acharam o menino com sua mãe Maria, e prostrando-se o adoraram. E abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso, e mirra.
12. E sendo por divina revelação avisados em sonho que não voltassem a Herodes, partiram para sua terra por outro caminho.
13. E tendo eles partido, eis que um anjo do Senhor apareceu a José em sonho, dizendo: 
Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito; e fica lá até que eu te diga, porque Herodes buscará o menino para o matar.
14. Então ele se despertou, tomou o menino e sua mãe de noite, e foi para o Egito;
15. E esteve lá até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta, que disse: Do Egito chamei o meu Filho.
16. Então Herodes, ao ver que tinha sido enganado pelos magos, irou-se muito, e mandou matar todos os meninos em Belém e em todos os limites de sua região, [da idade] de dois anos e abaixo, conforme o tempo que tinha perguntado com precisão dos magos.
17. Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias, que disse:
18. Uma voz se ouviu em Ramá, lamentação, choro, e grande pranto; Raquel chorava por seus filhos, e não quis ser consolada, pois já não existem.
19. Mas depois de Herodes ter morrido, eis que um anjo do Senhor apareceu no Egito a José em sonho,
20. Dizendo: 
Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel, porque já morreram os que procuravam a morte do menino.
21. Então ele se levantou, tomou o menino e sua mãe, e veio para a terra de Israel.
22. Porém ao ouvir que Arquelau reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, ele teve medo de ir para lá; mas avisado por divina revelação em sonho, foi para a região da Galileia, 
23. E veio a habitar na cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas, que:
Ele será chamado de Nazareno.





2.1 uns magos. Ao contrário da crendice popular oriunda da tradição, a Bíblia não diz que eram “três” magos, nem que eram reis, nem que eles visitaram Jesus na manjedoura, pois já se haviam passado em torno de dois anos desde que Jesus havia nascido (v.16).

2.11 o adoraram. Essa é a primeira menção implícita no NT acerca da divindade de Cristo. A palavra aqui utilizada, no grego proskuneo, é a mesma sempre usada na Septuaginta para a adoração a Deus no AT, e também sempre aplicada no NT para se referir ao Pai (Jo.4:20; At.24:11; 1Co.14:25; Hb.11:21; Ap.4:10), o que mostra que a adoração devida ao Filho é a mesma adoração devida ao Pai. Quando proskuneo (adoração) era praticado diante de meros homens, o adorador era sempre repreendido (At.10:25-26; Ap.19:10; 22:8-9). Também é digno de nota observar que, embora José e Maria também estivessem presentes, os magos se prostraram somente diante de Jesus.

2.23 dito pelos profetas. Mateus não estava citando um profeta em particular que escreveu algo registrado no AT, mas algo geral predito pelos “profetas”, no plural, como uma provável referência genérica de que Jesus seria desprezado, como os nazarenos eram (ver Jo.1:46, comparar com Is.53:3; SI.22:6; Zc.12:10). Outros observam que Nazaré vem da palavra nctzer, que significa renovo, algo que foi predito por vários profetas do AT (Is.11:1; Jr.23:5; 33:15; Zc.3:8; 6:12). Também é possível que o “dito pelos profetas” tenha sido algo conservado oralmente, transmitido pela tradição judaica acerca do Messias ou revelado diretamente a Mateus pelo Espírito Santo.

Comentário de Mateus 1

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
2. Abraão gerou a Isaque; e Isaque gerou a Jacó; e Jacó gerou a Judá e a seus irmãos.
3. E Judá gerou de Tamar a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom, e Esrom gerou a Arão.
4. E Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom; e Naassom gerou a Salmom.
5. E Salmom gerou de Raabe a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé.
6. E Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão da que [fora mulher] de Urias.
7. E Salomão gerou a Roboão; e Roboão gerou a Abias; e Abias gerou a Asa.
8. E Asa gerou a Josafá; e Josafá gerou a Jorão; e Jorão gerou a Uzias.
9. E Uzias gerou a Jotão; e Jotão gerou a Acaz; e Acaz gerou a Ezequias.
10. E Ezequias gerou a Manassés; e Manassés gerou a Amom; e Amom gerou a Josias.
11. E Josias gerou a Jeconias, e a seus irmãos no [tempo do] exílio babilônico.
12. E depois do exílio babilônico Jeconias gerou a Salatiel; e Salatiel gerou a Zorobabel.
13. E Zorobabel gerou a Abiúde; e Abiúde gerou a Eliaquim; e Eliaquim gerou a Azor.
14. E Azor gerou a Sadoque; e Sadoque gerou a Aquim; e Aquim gerou a Eliúde
15. E Eliúde gerou a Eleazar; e Eleazar gerou a Matã; e Matã gerou a Jacó.
16. E Jacó gerou a José, o marido de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado o Cristo.
17. De maneira que todas as gerações desde Abraão até Davi são catorze gerações; e desde Davi até o exílio babilônico catorze gerações; e desde o exílio babilônico até Cristo catorze gerações.
18. E o nascimento de Jesus Cristo foi assim: estando sua mãe Maria desposada com José, antes que se ajuntassem, ela foi achada grávida do Espírito Santo.
19. Então José, seu marido, sendo justo, e não querendo a expor à infâmia, pensou em deixá-la secretamente.
20. E ele, pretendendo isto, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonho, dizendo: 
José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela está concebido é do Espírito Santo.
21. E ela dará à luz um filho, e tu chamarás seu nome Jesus; porque ele salvará seu povo de seus pecados.
22. E tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta, que disse:
23. Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamarão seu nome Emanuel, 
que traduzido é: Deus conosco.
24. E despertando José do sonho, fez como o anjo do Senhor tinha lhe mandado, e recebeu sua mulher.
25. E ele não a conheceu [intimamente], até que ela deu à luz o filho dela, o primogênito, e lhe pôs por nome JESUS.





1.2-16 Mateus usa o termo “gerou” em um sentido mais amplo, que significa “antecedente de”, não necessariamente como sendo o pai natural. É neste sentido que “Jorão gerou a Uzias” (v.8), quando de fato houve três gerações entre eles (Acazias, Joás e Amazias), e é neste sentido que “Josias gerou a Jeconias” (v.11), quando na verdade Josias era pai de Jeoacaz (2Cr.36:1), que era pai de Jeconias.

1.21 Jesus significa o Senhor salva.

1.25 até que. Ao invés de Mateus dizer que José não “conheceu” intimamente Maria nunca (dogma da virgindade perpétua de Maria), ele diz que José não a conheceu até que ela desse a luz a Jesus. Mateus poderia ter dito em relação à Maria o mesmo que foi dito acerca de Mical, que “não teve filhos até o dia da sua morte” (2Sm.6:23). Com isso, ele estaria deixando claro que ela não havia gerado filhos durante todo o seu período existencial (“até a sua morte”). Mas com Maria essa restrição era somente até o nascimento de Jesus, e não para sempre. Este “até que”, quando empregado no NT, implica no fim de um acontecimento. É assim que temos que comer o pão e tomar o cálice até que Jesus venha (1Co.11:26), que os mortos não reviveramaté que se completassem os mil anos (Ap.20:5) – porque reviveram depois –,  que Pedro e João foram colocados na prisão até o dia seguinte (At.4:3) – porque depois saíram – e que a visão do monte da transfiguração não era para ser contada para ninguém até que Jesus fosse ressuscitado dos mortos (Mt.17:9) – eles contaram depois disso (2Pe.1:17,18).

1.25 primogênito. O fato de Mateus acrescentar que Maria deu a luz ao seu “primogênito” (v.25) também indica que ela teve outros filhos. Caso assim não fosse, teria simplesmente escrito que Jesus era o seu “filho único”, como a Bíblia frequentemente afirma em outros casos, em que de fato não havia outros irmãos na família, como o caso da viúva de Naim, cujo “filho único” (Lc.7:12) havia falecido, e do homem que queria expulsar de seu filho o demônio, porque era o seu “filho único” (Lc.9:38). Por que nestes casos não está escrito que eles eram os seus filhos primogênitos? Porque eles eram os seus únicos filhos. Quando alguém era o primeiro de outros filhos de uma mesma mãe, é comum a Bíblia chamar de “primogênito”, por ser o primeiro de outros filhos (1Cr.4:4; 2:50; 1:29); porém, quando ele não apenas é o primeiro, mas também o único, a expressão frequentemente utilizada é a de “filho único” (Lc.7:12; 9:38), expressão essa que nunca foi aplicada a Jesus em relação à sua família natural.