15 de julho de 2014

Comentário de Mateus 12

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. Naquele tempo Jesus estava indo pelas plantações de cereais no sábado; e seus discípulos tinham fome, e começaram a arrancar espigas, e a comer.
2. E os fariseus, ao verem, lhe disseram: 
 Eis que teus discípulos fazem o que não é lícito fazer no sábado.
3. Porém ele lhes disse: 
 Não tendes lido o que Davi fez, quando teve fome, ele e os [estavam] que com ele?
4. Como ele entrou na casa de Deus, e comeu os pães da proposição, que a ele não era lícito comer, nem também aos que [estavam] com ele, a não ser somente aos sacerdotes?
5. Ou não tendes lido na Lei, que nos sábados, os sacerdotes no Templo profanam o sábado, e ficam sem culpa alguma?
6. Porém eu vos digo que [o] maior que o Tempo está aqui.
7. Mas se vós soubésseis que coisa é:
 Quero misericórdia, e não sacrifício,
 Não condenaríeis aos inocentes.
8. Porque o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado.
9. E partindo dali, entrou na sinagoga deles.
10. E eis que havia ali um homem que tinha uma mão seca; e eles, para o acusarem, perguntaram-lhe, dizendo: 
 É lícito curar nos sábados? 
11. E ele lhes disse: 
 Qual homem de vós haverá, que tenha uma ovelha, e se a tal cair em uma cova no sábado, não a pegue, e a levante?
12. Pois quanto mais vale um ser humano que uma ovelha? Portanto é lícito fazer o bem nos sábados.
13. Então disse para aquele homem: 
 Estende tua mão; 
e ele a estendeu, e foi-lhe restituída sã como a outra.
14. E os fariseus, tendo saído, reuniram-se para tramarem contra ele, sobre como o matariam.
15. Mas Jesus, sabendo [disso], retirou-se dali; e muitas multidões o seguiram, e ele curou a todos.
16. E os advertia, para que não espalhassem notícias sobre ele.
17. Para que se cumprisse o que foi declarado pelo profeta Isaías, que disse:
18. Eis aqui meu servo a quem escolhi, meu amado em quem minha alma se agrada; sobre ele porei meu Espírito, e anunciará julgamento às nações.
19. Ele não brigará, nem gritará; nem ninguém sua ouvirá voz pelas ruas.
20. A cana esmagada ele não despedaçará, e o pavio que fumega não apagará, até que conduza o julgamento à vitória.
21. E em seu nome as nações esperarão.
22. Então lhe trouxeram um endemoninhado cego e mudo; e ele o curou de tal maneira que o cego e mudo falava e via.
23. E todas as multidões se admiravam e diziam: 
 Não é este o Filho de Davi?
24. Mas os fariseus, ao ouvirem, diziam: 
 Este não expulsaria os demônios, se não fosse por Belzebu, o chefe dos demônios.
25. Porém Jesus, conhecendo os pensamentos deles, disse-lhes: 
 Todo reino contra si mesmo é destruído; e toda cidade, ou casa, dividida contra si mesma, não permanecerá.
26. E se Satanás expulsa a Satanás, contra si mesmo está dividido; como então seu reino continuará?
27. E se eu expulso os demônios por Belzebu, então por quem vossos filhos os expulsam? Por isso, eles serão vossos juízes.
28. Mas se eu pelo Espírito de Deus expulso os demônios, então já chegou até vos o Reino de Deus.
29. Ou como pode alguém entrar na casa do valente, e saquear seus bens, se primeiro não amarrar ao valente? E então saqueará sua casa.
30. Quem não é comigo é contra mim; e quem não junta comigo, espalha.
31. Portanto eu vos digo: todo pecado e blasfêmia será perdoado aos seres humanos; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada aos seres humanos.
32. E qualquer um que falar palavra contra o Filho do homem, lhe será perdoado; mas qualquer que falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem nestes tempos, nem nos que virão.
33. Ou fazei a árvore boa, e seu fruto bom; ou fazei a árvore má, e seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore.
34. Raça de víboras, como podeis vós falar boas coisas, sendo maus? Porque da abundância do coração a boca fala.
35. A boa pessoa tira boas coisas do bom tesouro do coração, e a má pessoa tira más coisas do mau tesouro.
36. Mas eu vos digo que, de toda palavra inútil que as pessoas falarem, dela darão conta no dia do juízo.
37. Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado.
38. Então responderam uns dos Escribas e dos Fariseus, dizendo: 
 Mestre, queremos ver de ti algum sinal.
39. Mas ele respondeu, e disse-lhes: 
 Uma geração má e adúltera pede sinal; mas não será lhes dado, a não ser o sinal do profeta Jonas.
40. Porque assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim também o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da terra.
41. Os de Nínive se levantarão em juízo com esta geração, e a condenarão; porque se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis que [o] maior que Jonas está aqui.
42. A rainha do sul se levantará em juízo com esta geração, e a condenará; porque veio dos fins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis que [o] maior que Salomão está aqui.
43. E quando o espírito imundo sai da pessoa, ele anda por lugares secos buscando repouso e não o acha.
44. Então diz: 
 Voltarei para minha casa de onde saí. E vindo, a acha desocupada, varrida, e adornada.
45. Então vai, e toma consigo outros sete espíritos piores que ele; eles entram, [e], moram ali; e as últimas coisas de tal pessoa se tornam piores que as primeiras. Assim também acontecerá a esta geração má.
46. E estando ele ainda falando às multidões, eis que sua mãe e seus irmãos estava fora, querendo falar com ele.
47. E alguém lhe disse: 
 Eis que estão fora tua mãe e teus irmãos, querendo falar contigo.
48. Porém ele, respondendo, disse ao que lhe avisou: 
 Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos?
49. E estendendo sua mão sobre seus discípulos, disse: 
 Eis aqui minha mãe e meus irmãos;
50. Porque qualquer um que fizer a vontade de meu Pai, que [está] nos céus, esse é meu irmão, e irmã, e mãe.





12.8 o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado. Assim como Jesus era maior que o Templo (v.6), ele também era maior que o sábado (v.8). “Senhor” é um título de autoridade sobre algo inferior. Isso não significa que Jesus quebrava o sábado (em seus dias a lei ainda vigorava), mas sim que era incoerente condenar o maior (Jesus) por algo menor (sábado).

12.14
 
e os fariseus, tendo saído, reuniram-se para tramarem contra ele, sobre como o matariam. Os fariseus haviam acrescentado muitas regras provenientes de sua tradição que ultrapassavam os limites das Escrituras, como a proibição da cura no sábado (v.10), que não existe no AT. Ao condenar as tradições para seguir somente a Bíblia, Jesus estava desafiando a tradição farisaica, razão que os levou a planejar a morte que mais tarde foi consumada com a traição de Judas (v. nota em Mc.7:3-13).

12.23 Filho de Davi. O Messias, que deveria ser descendente de Davi (Jo.7:42).

12.28 então já chegou até vos o Reino de Deus. O Reino em sua forma espiritual (na pessoa de Cristo). O Reino em sua forma física ainda estaria por vir (Lc.13:29).

12.29 se primeiro não amarrar o valente. Satanás tem que ser “amarrado” antes de ser “saqueado”. Isso, contudo, não significa que a expressão “está amarrado” seja necessária no momento de expulsar Satanás. Ele é naturalmente amarrado dada a ordem de expulsão. Todas as vezes em que exorcismos eram feitos, somente se expulsava em nome de Jesus, sem mais delongas (At.16:18; 19:13; Mc.9:25; Lc.4:35).

12.30 quem não ajunta, espalha. Para Jesus, omissão era o mesmo que negação. Colocar-se em uma posição de neutralidade, sem decididamente se posicionar em favor de Cristo, crendo nele e seguindo a Sua Palavra (Escrituras), é o mesmo que se colocar contra ele. Fora do Cristianismo não existe nenhuma posição de neutralidade, mas somente oposição.

12.31 blasfemar contra o Espírito Santo. V. nota em Lc.12:10.

12.32 nem nestes tempos, nem nos que virão. Jesus não estava ensinando que existe um lugar de perdão de pecados depois da morte, mas que quem pecasse contra o Espírito Santo não teria perdão nunca. Por toda a Bíblia é claro o sentido de que a oportunidade de salvação e perdão dos pecados limita-se a esta vida terrena (Hb.9:27; 2Co.6:1-2; Hb.3:13). No grego, a palavra utilizada foi aion, que significa “para sempre”, passando o sentido de que aquela pessoa não seria perdoada “nem agora e nem nunca”, e não que há a possibilidade de receber perdão depois da morte. O sentido secundário de aion é de “mundos”, podendo-se referir à Nova Jerusalém que descerá dos céus (Ap.21:2-3), e, neste caso, o texto estaria dizendo que quem blasfemasse contra o Espírito Santo não receberia perdão nem nesta vida, nem após a ressurreição – contrariando os universalistas. De uma forma ou de outra, o texto não afirma absolutamente nenhum purgatório, inventado pelos papistas no segundo Concílio de Lyon (ano 1274). O próprio fato de Cristo se referir aos “tempos que virão” ou a “era que há de vir” já mostra que não pode estar falando do purgatório, já que, para o catolicismo romano, o purgatório era algo já vigente, e não algo que existiria no futuro.

12.40 baleia. Tradução equivocada. A palavra grega ketos significa primariamente um “peixe imenso” (Strong, 2785), não necessariamente uma baleia. O peixe que provavelmente engoliu Jonas foi o cachalote, que vivia naquelas regiões e tem estrutura orgânica para isso. Há relatos históricos até o século XX de marinheiros que foram engolidos vivos por cachalotes, e de pessoas que sobreviveram depois de dois dias engolidas pelo peixe.

12.46 seus irmãos. V. nota em Mc.6:3.

12.48-49 Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? (...) Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Jesus considerava a sua família espiritual acima da sua família natural. Essa família espiritual era constituída por todo aquele que fizesse a vontade do Pai (v.50).

Comentário de Mateus 11

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. E sucedeu que, tendo Jesus acabado de dar mandamentos a seus doze discípulos, partiu dali para ensinar e para pregar nas suas cidades.
2. E João, ao ouvir na prisão as obras de Cristo, enviou[-lhe] dois de seus discípulos,
3. Dizendo-lhe: 
És tu aquele que havia de vir, ou esperamos a outro?
4. E Jesus respondendo, disse-lhes: 
Ide e voltai para anunciar a João as coisas que ouvis e vedes:
5. Os cegos veem, e os mancos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o Evangelho.
6. E bem-aventurado é aquele que não se ofender em mim.
7. E tendo eles ido, Jesus começou a dizer às multidões sobre João: 
Que saístes ao deserto para ver? Uma cana que se abala com o vento?
8. Mas que saístes para ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Eis que os que usam [roupas] delicadas estão nas casas dos reis.
9. Mas que saístes para ver? Um profeta? Sim, eu vos digo, e muito mais que um profeta;
10. Porque este é aquele sobre o qual está escrito: 
Eis que diante de tua face envio a meu mensageiro, que preparará teu caminho adiante de ti.
11. Em verdade vos digo, que dentre os nascidos de mulheres, não se levantou [outro] maior que João o Batista; porém o menor no Reino dos céus é maior que ele.
12. E desde os dias de João o Batista até agora, o Reino dos céus é forçado, e os violentos o invadem.
13. Porque todos os profetas e a Lei profetizaram até João.
14. E se estais dispostos a receber, este é o Elias que havia de vir.
15. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
16. Mas com quem compararei esta geração? Semelhante é aos meninos que se sentam nas praças, e chamam a seus companheiros,
17. E dizem: 
Tocamos flauta para vós, e não dançastes; cantamos lamentações para vós, e não chorastes.
18. Porque João veio, nem comendo, nem bebendo, e dizem: 
Ele tem demônio.
19. Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: 
Eis um homem comilão e beberrão, amigo de cobradores de impostos e pecadores; mas a sabedoria foi justificada por seus filhos.
20. Então ele começou a acusar as cidades em que a maioria de seus milagres foram feitos, que não tinham se arrependido, [dizendo]:
21. Ai de ti Corazim! Ai de ti Betsaida! Porque se em Tiro e em Sídon tivessem sido feitos os milagres que foram feitos em vós, há muito que teriam se arrependido com saco e com cinza.
22. Porém eu vos digo que mais tolerável será para Tiro e Sídon, no dia do juízo, que para vós. 
23. E tu, Cafarnaum, que estás exaltada até o céu, serás derrubada até o mundo dos mortos! Porque se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que foram feitos em ti, teriam permanecido até o dia de hoje.
24. Porém eu vos digo que mais tolerável será para os de Sodoma, no dia de juízo, que para ti.
25. Naquele tempo Jesus, respondendo, disse: 
Graças te dou, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos meninos.
26. Sim, Pai, porque assim te agradou em teus olhos.
27. Todas as coisas me foram entregues pelo meu Pai; e ninguém conhece ao Filho, a não ser o Pai; nem ninguém conhece ao Pai, a não ser o Filho, e a quem o Filho quiser [o] revelar.
28. Vinde a mim todos os que estais cansados, e carregados, e eu vos farei descansar.
29. Tomai sobre vós meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para vossas almas.
30. Porque o meu jugo é suave, e minha carga é leve.





11.8 os que usam roupas delicadas estão nas casas dos reis. Nota-se aqui o contraste entre os ricos (que viviam nos palácios) e os profetas (incluindo João). A vida dos servos de Deus não era cercada de riquezas ou regalias, mas na simplicidade.

11.11 entre os nascidos de mulher, não se levantou maior que João o Batista. João foi a pessoa mais importante no tempo da antiga aliança, superando nomes de destaque como Moisés, Elias, Davi e os pais de Jesus. Mesmo assim, o “menor no Reino dos céus” (nova aliança) é considerado maior que ele, porque a nova aliança é superior à antiga (2Co.3:8), colocando qualquer cristão como “rei e sacerdote” (Ap.1:6), em posição de superioridade espiritual em relação aos da antiga aliança (2Co.3:7-11). A maior razão disso é porque na nova aliança todo cristão possui o Espírito Santo (Jo.14:17), enquanto na antiga aliança o Espírito Santo vinha determinadas vezes sobre algum homem de Deus, mas de forma temporária e passageira (Nm.11:25).

11.12 o Reino dos céus é forçado, e os violentos o invadem. A salvação pela graça, ao invés do esforço próprio, era algo que seria revelado mais claramente através do sacrifício expiatório de Cristo na cruz do Calvário, com a justificação pela fé – algo que ainda estava por acontecer.

11.14 este é o Elias que havia de vir. Obviamente João não era a reencarnação de Elias, como os espíritas acreditam. Em primeiro lugar, o próprio João Batista negou explicitamente de forma clara e direta que fosse Elias, quando foi perguntado sobre isso (Jo.1:21). Em segundo lugar, a Bíblia em lugar nenhum diz que Elias morreu, para que ele pudesse reencarnar em alguém. Ao contrário: diz que Elias subiu vivo em uma carruagem de fogo, sendo recebido no Céu (2Rs.2:11). É lógico que ele não foi morto no Céu para poder reencarnar em outro corpo. Em terceiro lugar, Elias apareceu pessoalmente no monte da transfiguração nos tempos de Jesus (Mt 17:10-13), o que nos mostra que Elias permanecia sendo Elias, e João permanecia sendo João. Ele não havia mudado de identidade nem de autoconsciência. Em quarto lugar, Lucas explica em que sentido que João Batista era Elias, ao dizer que João caminhava “no espírito e virtude de Elias” (Lc.1:17), ou seja, na mesma disposição de coração. Em quinto, João era um cumprimento profético (uma tipologia) de Elias, e não Elias como pessoa. Ele veio com a mesma função de Elias, e não com a mesma alma dele. Ele veio para continuar seu ministério profético. Por fim, a Bíblia não ensina a reencarnação, mas a ressurreição, que é o oposto à reencarnação (Hb.11:35; Mt.22:31; 1Co.15:13; Fp.3:11; Hb.6:2). O autor de Hebreus foi suficientemente claro ao dizer que “o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo” (Hb.9:27).

11.22 mais tolerável será para Tiro e Sídon, no dia do juízo, que para vós. V. nota em Mt.10:15.

11.23 mundo dos mortos. V. nota em Lc.10:15.

11.29 e achareis descanso para vossas almas. Este descanso refere-se ao descanso celestial (Ap.14:13) e é garantido pela salvação obtida na terra, que também é considerada um descanso (Hb.4:3-10).

Comentário de Mateus 10

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. E chamando a si seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem, e curarem toda doença e todo mal.
2. E os nomes dos doze apóstolos são estes: o primeiro, Simão, chamado Pedro, e André seu irmão; Tiago [filho] de Zebedeu, e João seu irmão.
3. Filipe e Bartolomeu; Tomé, e Mateus o cobrador de impostos; Tiago [filho] de Alfeu; e Lebeu, por sobrenome Tadeu.
4. Simão cananeu, e Judas Iscariotes, o mesmo que o entregou.
5. Jesus enviou a estes doze, e lhes mandou, dizendo: 
 Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos.
6. Mas em vez disso, ide às ovelhas perdidas da casa de Israel.
7. E quando fordes, pregai, dizendo: 
 Chegado é o Reino dos céus.
8. Curai aos doentes, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; recebestes de graça, dai de graça.
9. Não possuais ouro, nem prata, nem [dinheiro de] cobre em vossas cintas.
10. Nem bolsas para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado; pois o trabalhador é digno de seu alimento.
11. E em qualquer cidade ou aldeia que entrardes, informai-vos de quem nela seja digno, e ficai ali até que saiais.
12. E quando entrardes em [alguma] casa, saudai-a.
13. E se a casa for digna, venha sobre ela vossa paz; mas se ela não for digna, volte vossa paz a vós.
14. E qualquer um que não vos receber, nem ouvir vossas palavras, ao sairdes daquela casa ou cidade, sacudi o pó de vossos pés.
15. Em verdade vos digo que será mais tolerável para [os da] terra de Sodoma e Gomorra no dia do julgamento, do que para [os] daquela cidade.
16. Eis que eu vos envio como a ovelhas em meio dos lobos; portanto sede prudentes como serpentes, e inofensivos como pombas.
17. Mas tende cuidado com as pessoas; porque vos entregarão em tribunais, e vos açoitarão em suas sinagogas.
18. E até perante governadores e reis sereis levados por causa de mim, para que a eles e aos gentios lhes haja testemunho.
19. Mas quando vos entregarem, não estejais ansiosos de como ou que falareis; porque naquela mesma hora vos será dado o que deveis falar.
20. Porque não sois vós os que falais, mas sim o Espírito de vosso Pai que fala em vós.
21. E o irmão entregará à morte ao irmão, e o pai ao filho; e os filhos se levantarão contra os pais, e os matarão.
22. E sereis odiados por todos por causa de meu nome; mas aquele que perseverar até o fim, esse será salvo.
23. Quando então vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo, que não acabareis de [percorrer] as cidades de Israel, até que venha o Filho do homem.
24. O discípulo não é maior que o mestre, nem o servo maior que seu senhor.
25. Seja o suficiente ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor; se ao chefe da casa chamaram de Belzebu, quanto mais aos membros de sua casa?
26. Portanto não os temais; porque nada há encoberto, que se não haja de descobrir; e [nada] escondido, que não haja de se saber.
27. O que eu vos digo em trevas, dizei na luz; e o que ouvirdes ao ouvido, proclamai sobre os telhados.
28. E não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; temei antes a aquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno.
29. Não se vendem dois passarinhos por uma moeda de ceitil? e nem um deles cairá em terra sem [a vontade de] vosso Pai.
30. E até os cabelos de vossas cabeças estão todos contados.
31. Portanto não tenhais medo; mais valeis vós que muitos passarinhos.
32. Portanto qualquer um que me confessar diante das pessoas, também eu o confessarei diante de meu Pai, que [está] nos céus.
33. Porém qualquer um que me negar diante das pessoas, também eu o negarei diante de meu Pai, que [está] nos céus.
34. Não penseis que vim para trazer paz na terra; não vim para trazer paz, mas sim espada.
35. Porque eu vim para pôr em discórdia o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra.
36. E os inimigos do homem [serão] os de sua [própria] casa.
37. Quem ama pai ou mãe mais que a mim não é digno de mim; e quem ama filho ou filha mais que a mim não é digno de mim.
38. E quem não toma sua cruz e segue após mim não é digno de mim.
39. Quem achar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a achará.
40. Quem vos recebe, recebe a mim; e quem recebe a mim, recebe a aquele que me enviou.
41. Quem recebe um profeta por reconhecê-lo como profeta receberá recompensa de profeta; e quem recebe um justo por reconhecê-lo como justo receberá recompensa de justo.
{por reconhecê-lo: lit. em nome de – também v. 42}
42. E qualquer um que der [ainda que] somente um pequeno vaso de [água] fria a um destes pequenos por reconhecê-lo como discípulo, em verdade vos digo, que de maneira nenhuma perderá sua recompensa.





10.2 primeiro, Simão. O fato de Pedro ter sido citado por primeiro nesta ocasião não significa, de forma alguma, que ele tinha autoridade superior aos demais, como ensina a Igreja Romana. Aqui não foi utilizada a palavraartios, que significa “primeiro” no sentido de “líder” (Strong, 746), e sim protos, que significa primeiro “em alguma sucessão de coisas ou pessoas” (Strong, 4413). É digno de nota que arche (que expressa liderança ou autoridade no grego) nunca foi utilizada para Pedro no NT. Por outro lado, em Gálatas 2:9 Pedro é apenas osegundo a ser mencionado, quando o assunto em questão são as colunas (autoridades) na Igreja. Se Pedro fosse o líder supremo e Sumo Pontífice dos cristãos, seria imprescindível que ele sempre aparecesse em primeiro, ainda mais quando o assunto em questão está relacionado a liderança. Mas o que vemos é que Pedro não era nem a única coluna, nem a primeira coluna.

10.5 não ireis pelo caminho dos gentios. O evangelho teria que ser anunciado primeiramente aos judeus (Jo.1:11), e só depois da rejeição dos judeus seria espalhado por toda a terra (Mc.16:15).

10.8 recebestes de graça, dai de graça. Diferente de muitos que lucram através da fé vendendo seus produtos ou extorquindo o povo em seus púlpitos, o ensino cristão é de que tudo aquilo que nós somos e que nós temos veio de Deus, e veio de graça, razão pela qual não temos que lucrar com algo que não veio de nós. Seria como se alguém te emprestasse um relógio de graça, e você vendesse este relógio a outra pessoa, lucrando através dele. Deus vai pedir contas de cada pessoa que fizer isso (1Tm.6:5; 2Co.2:17).

10.15 será mais tolerável para os da terra de Sodoma. O versículo transmite a ideia de um juízo maior sobre aquele que recebeu mais conhecimento, e de um juízo menos rigoroso para aquele que teve menos oportunidades de conhecer a verdade do evangelho. “Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites, mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites” (Lc.12:47-48). Jesus também disse que no dia do juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidom (que tiveram menos oportunidades de ouvir a verdade) do que para Corazim e Betsaida, porque estes viram os milagres de Cristo e mesmo assim o rejeitaram (Mt.11:21-22). É por isso que “nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor” (Tg.3:1). Cristo também deixou claro que “se eu não tivesse vindo e lhes falado, não seriam culpados de pecado; agora, contudo, eles não têm desculpa para o seu pecado” (Jo.15:22), e que “se vocês fossem cegos, não seriam culpados de pecado; mas agora que dizem que podem ver, a culpa de vocês permanece” (Jo.9:41).

Em outras palavras, o princípio da proporcionalidade equilibra a questão. Se por um lado é verdade que um teve mais conhecimento (e consequentemente mais chances de aceitar Jesus), por outro lado também é verdade que este será julgado com maior rigor do que aquele que recebeu menos. Esta lei de proporcionalidade retira toda e qualquer acusação de injustiça na questão do livre-arbítrio, e coloca todos sob um mesmo patamar final. Deus nunca trabalhou de maneira injusta e arbitrária, mas sempre de forma justa e igualitária, mesmo que a igualdade atue mediante fatores que equilibram.

10.23 não acabareis de percorrer as cidades de Israel, até que venha o Filho do homem. Não se refere à segunda vinda gloriosa de Cristo nas nuvens, no fim dos tempos (Mt.24:30), mas sim à vinda em juízo contra Israel, que espiritualmente aconteceu em 70 d.C, quando os judeus foram destruídos pelos romanos. É a confusão presente na falta de distinção entre a vinda em juízo e a vinda em glória que causa enganos escatológicos como o preterismo completo (pós-milenismo).

10.28 não podem matar a alma. Embora alguns imortalistas usem essa passagem em favor da imortalidade da alma, ela implica no aniquilacionismo final, pois a continuação lógica de um texto que diz que os homens podem apenas matar o corpo mas não podem matar a alma é que Deus destruirá tanto um como o outro. Não há a menor lógica em dizer que os homens podem matar apenas o corpo e não a alma se Deus também só matasse o corpo e não a alma. A mensagem sobre temer a Deus mais do que temer aos homens só faria sentido caso Deus matasse mais do que os homens são capazes de fazer, isto é, se os homens pudessem dar fim a existência apenas do corpo enquanto Deus dá fim a existência do corpo e da alma. Aqui a destruição está claramente no sentido de aniquilação, e não apenas de “fazer perder” ou de “lançar”, como vertem algumas traduções. De outra forma, o texto estaria dizendo que os homens matam apenas o corpo e não a alma e Deus também mata apenas o corpo e não a alma. Isso obviamente anularia toda a mensagem de não temer quem pode dar um fim apenas ao corpo, se Deus da mesma forma também só desse um fim ao corpo!

A conclusão imortalista de que não é para temer aqueles que só podem matar o corpo, mas era para temer aquele que também só mata o corpo, não é nem um pouco razoável. O texto implica na destruição final do corpo e da alma dos ímpios. “Alma”, neste texto, está no sentido de vida póstuma (a vida que se obtém com a ressurreição), como muitas vezes ocorre nos evangelhos (Mt.16:26; Lc.21:19; Jo.12:25), e não no sentido primário de um ser vivo (Gn.2:7). O sentido do texto é que os homens podem dar um fim somente a esta vida terrena (representada pelo corpo), mas não podem fazer nada em relação à outra vida (a vida eterna). Deus, contudo, tem o poder tanto para dar um fim à existência terrena, como à eterna. Um ímpio pode matar um crente nesta vida, mas não pode tirar a vida eterna dele. Deus, porém, pode destruir um ímpio nesta vida e por toda a eternidade.

Esta interpretação também é corroborada por dois elementos textuais. O primeiro é que Jesus não falou do Hades, mas do geena, no original grego. Embora a BLIVRE tenha optado pela palavra “inferno” indiscriminadamente, o Hades é o nome dado à sepultura coletiva onde todos vão após a morte e antes da ressurreição, enquanto o geena é o local final de punição aos ímpios, após a ressurreição. Jesus não diz que após a destruição corporal a alma seria lançada no Hades, mas no geena, o que mostra que ele não contemplava um estado intermediário, mas estava falando do estado final – da vida que se obtém após a ressurreição. O segundo é que Lucas, ao transcrever este mesmo texto em seu evangelho, retira o termo “alma”, preferindo ir direto ao significado do texto (v. nota em Lc.12:4-5). A razão pela qual Lucas optou em nãotranscrever as palavras exatas de Jesus, mas o seu significado, é que o discurso poderia possivelmente ser mal interpretado, com alma em um sentido diferente do expresso por Cristo (Lucas escrevia a leitores gregos, que tinham em mente o conceito platônico de alma). E na transcrição de Lucas não há nenhum indício de sobrevivência da alma, o que mostra que ele não entendia o texto de Mateus da mesma forma que os imortalistas o entendem. Se o sentido fosse que a alma sobrevive após a morte, ele não teria feito qualquer alteração, pois isso não seria necessário.

10.29 sem [a vontade de] vosso Pai. A parte entre colchetes inexiste no Textus Receptus. O sentido mais provável é de consentimento, e não de vontade (v. tradução NVI, baseada no Texto Crítico). O que Deuspermite não é necessariamente causado por ele (v. nota em Ef.1:11).

10.32-33 Confessar ou negar Jesus publicamente não se refere somente ao ato de dizer publicamente que Jesus é o único e suficiente salvador (o que também é importante), mas diz respeito à vida como um todo, principalmente a quando estamos fora do local de culto. Podemos sempre confessar ou negar Jesus em nossas vidas com nossos atos. Alguém que se une à mesa dos imorais com conversas de baixo nível, xingamento ou promiscuidade, está negando Jesus publicamente com suas ações. Está mostrando que Jesus não está nele, e que ele ainda não se libertou do mundo. Quem é amigo do mundo não pode ser amigo de Deus (Tg.4:4). Em contrapartida, aquele que publicamente decide abrir mão de certos valores que são contrários à fé cristã, por amor a Cristo, está confessando-o publicamente. Quem se recusa a fazer parte da roda dos escarnecedores (Sl.1:1), a ir a festas imorais com amigos não-cristãos, a compactuar com zombaria ou deboches a outra pessoa, a assistir filmes indevidos que todo mundo vê, a usar sua boca para proferir baixarias e xingamentos – esse mostra publicamente que ama mais a Cristo do que o mundo, mesmo sabendo que pode ser ridicularizado pelo mundo por não seguir os valores que o mundo ensina (v. nota em Jo.12:43).

10.34 não vim trazer paz, mas a espada. “Espada” aqui está no sentido de divisão, de discórdia, inclusive entre pessoas da própria família (vs.35-36). A mensagem aqui transmitida é que é necessário colocar Cristo acima de todas as coisas – inclusive acima da própria família – e que essa posição por Jesus pode causar a discórdia de outros. Muitas pessoas conhecem Jesus antes de seus próprios pais ou irmãos, que são contra essa conversão, o que gera um conflito dentro da própria família. O que fazer? Buscar a paz familiar abandonando Cristo e voltando ao mundo, ou se tornar “inimigo” (v.36) do mundo por amor a Cristo? Ele responde a esta questão logo em seguida, dizendo que “quem ama pai ou mãe mais que a mim não é digno de mim; e quem ama filho ou filha mais que a mim não é digno de mim” (v.37).

10.38 toma sua cruz. V. nota em Lc.9:23.

10.39 achar sua vida... perder sua vida. V. nota em Lc.9:24.