9 de setembro de 2015

O nome do diabo é Lúcifer?


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Este capítulo faz parte da obra: “Exegese de Textos Difíceis da Bíblia”, ainda em construção.
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Muita confusão tem sido feita a respeito de Lúcifer, que teria sido o primeiro anjo celestial a se rebelar contra Deus e a levar consigo um terço dos anjos, que foram juntos com ele atirados a terra como consequencia por seu pecado. De um lado, alguns dizem que Deus já criou o diabo como “diabo”, isto é, que aquele que hoje é conhecido como Satanás foi desde sempre um opositor, e que ele nunca foi um anjo celestial. Segundo essa visão, é errado chamar Satanás de “anjo caído”, porque ele nunca foi anjo, e nunca caiu – uma vez que já foi criado com natureza satânica. Do outro lado, há muita gente que pensa que Deus criou um ser chamado Lúcifer, e que este é o nome do anjo que caiu e que continua sendo chamado assim até hoje.

Linha 1
Linha 2
Lúcifer é nome próprio
Lúcifer não é nome próprio
Afinal de contas, quem é Lúcifer?

Em primeiro lugar, devemos ter em mente se Deus criou Satanás como “Satanás” (que significa “opositor”), ou se um anjo se tornou Satanás após deliberadamente se insurgir contra Deus. Os que negam que Satanás seja um anjo caído ignoram uma série de passagens que provam isso de forma bastante clara. Jesus disse explicitamente que os demônios eram anjos:

“Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos’ (Mateus 25:41)

Obviamente, esses anjos não são os anjos de Deus, que estão hoje no Céu, os quais são obedientes a Deus. Por consequencia, só podem ser anjos caídos, isto é, que perderam suas posições no Céu, por desobediência. Em Atos 8:26, é dito que “um anjo do Senhor disse a Filipe...”. Se não existissem anjos que não fossem “do Senhor”, este texto não faria muito sentido.

Em 1ª Coríntios 6:3, o apóstolo Paulo diz:

“Vocês não sabem que haveremos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas desta vida!” (1ª Coríntios 6:3)

Este texto também não teria sentido caso os anjos aqui fossem os anjos de Deus. Se eles vão ser julgados – e ainda por nós, meros humanos – é muito provável que seja uma referência aos anjos caídos, isto é, aos demônios. 

Em 1ª Timóteo 5:21, Paulo se refere aos seres que estão agora no Céu e fala sobre “anjos eleitos”. Novamente, se não há anjos que não são “eleitos”, faz pouco sentido falar em “anjos eleitos”, ao invés de falar apenas em “anjos”, uma vez que tal distinção ou destaque não seria necessário.

No Apocalipse, lemos que os demônios “tinham um rei sobre eles, o anjo do Abismo, cujo nome, em hebraico, é Abadom e, em grego, Apoliom” (Ap.9:11).

Os demônios também são chamados de anjos em:

“Houve então uma guerra nos céus. Miguel e seus anjos lutaram contra o dragão, e o dragão e os seus anjos revidaram” (Apocalipse 12:7)

“O grande dragão foi lançado fora. Ele é a antiga serpente chamada Diabo ou Satanás, que engana o mundo todo. Ele e os seus anjos foram lançados a terra” (Apocalipse 12:9)

A noção de que os demônios são anjos caídos, que sugere o fato de que um dia eles eram anjos celestiais como os demais, também é ressaltada em Lucas 10:18, ocasião na qual Jesus diz:

“Eu vi Satanás caindo do céu como relâmpago” (Lucas 10:18)

Paulo diz ainda que o bispo cristão “não pode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o diabo” (1Tm.3:6). A declaração sugere que o que levou o diabo à queda foi o orgulho. Portanto, há bastante base bíblica para a concepção ortodoxa de que o diabo era um anjo de luz, que caiu de sua condição celestial ao deixar o orgulho falar mais alto, almejando o lugar de Deus[1]. Em outras palavras, Deus não criou Satanás como Satanás – foi o anjo que decidiu desobedecer a Deus e se tornar o que se tornou. Tudo o que Deus fez é bom (Gn.1:31; Ec.7:29).

No entanto, será que há base bíblica para afirmarmos também que este anjo que originalmente se rebelou contra Deus e que trouxe consigo outros anjos em sua rebelião chamava-se Lúcifer? Por incrível que pareça, o nome “Lúcifer” não existe em parte alguma da Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse. O que existe é a expressão “estrela da manhã”, em Isaías 14:12:

“Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!” (Isaías 14:12)

Estas palavras (“estrela da manhã”) foram traduzidas para o latim da versão de Jerônimo (conhecida como Vulgata), no século V, da seguinte maneira:

“QUOMODO CECIDISTI DE CAELO LUCIFER QUI MANE ORIEBARIS CORRUISTI IN TERRAM QUI VULNERABAS GENTES”

Na versão de Jerônimo aparece a palavra “Lucifer”, mas não como nome próprio de um ser, e sim apenas como a tradução para o latim do termo “estrela da manhã”. É por isso que em 2ª Pedro 1:19 a mesma expressão “estrela da manhã” (ou “estrela da alva”) é traduzida por Jerônimo como “Lucifer”, mais uma vez:

“Assim, temos ainda mais firme a palavra dos profetas, e vocês farão bem se a ela prestarem atenção, como a uma candeia que brilha em lugar escuro, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em seus corações” (2ª Pedro 1:19)

“ET HABEMUS FIRMIOREM PROPHETICUM SERMONEM CUI BENE FACITIS ADTENDENTES QUASI LUCERNAE LUCENTI IN CALIGINOSO LOCO DONEC DIES INLUCESCAT ET LUCIFER ORIATUR IN CORDIBUS VESTRIS”

A diferença é que, em 2ª Pedro 1:19, o sujeito referido como sendo a “estrela da manhã” não é o diabo, mas o Senhor Jesus!

Como vemos, Jerônimo apenas traduziu o termo “estrela da manhã” por “Lucifer” (no latim), não como nome próprio, pois até Jesus era “Lucifer” (=estrela da manhã). A confusão começou quando a famosa versão King James, a tradução inglesa do século XVII, decidiu manter para o inglês a palavra latina Lucifer, como se fosse nome próprio. Assim, eles traduziram por:

“How art thou fallen from heaven, O Lucifer, son of the morning! how art thou cut down to the ground, which didst weaken the nations!”

Este foi o grande erro da versão King James, que ao invés de traduzir direto do grego (o que ficaria “day star”), preferiu seguir a versão latina de Jerônimo e confundir a expressão “Lucifer” como se fosse nome próprio(!), fazendo com que “Lucifer” virasse um sujeito! Como essa versão da Bíblia acabou sendo a mais famosa nos séculos que se seguiram, várias traduções no mundo todo copiaram este erro nas mais diversas línguas, inclusive algumas versões em português, que verteram por “Lúcifer” (como nome próprio) em Isaías 14:12, embora tenham mantido o termo “estrela da manhã” em 1ª Pedro 1:19. Felizmente, este erro tem sido cada vez mais corrigido nas versões mais atuais, de modo que se o leitor conferir em sua própria Bíblia o texto de Isaías 14:12 é bastante provável que a palavra “Lúcifer” não apareça.

Em síntese, “Lúcifer” nunca foi o nome próprio do diabo. Se realmente Isaías 14 faz referência ao diabo, o máximo que poderíamos inferir disso é que o ser que hoje é o diabo um dia foi um “lúcifer”, ou seja, uma “estrela da manhã” – algo que ele já não é mais, pois já perdeu toda a glória e a luz que tinha antes da queda. Hoje, o máximo que ele pode fazer é se fingir de anjo de luz (2Co.11:14). As igrejas que continuam chamando Satanás de “Lúcifer”, além de cometerem um erro teológico, ainda estão fazendo um favor ao diabo, atribuindo-lhe aquilo que ele não é mais!

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (www.lucasbanzoli.com)


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[1] Muitos teólogos ainda suscitam os textos de Isaías 14 e de Ezequiel 28 como aplicação a Satanás, mas como estes textos são controversos e suscitariam um debate ainda maior, preferi deixá-los para uma outra oportunidade. 

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