7 de setembro de 2015

Quem são os 144 mil?


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Este capítulo faz parte da obra: “Exegese de Textos Difíceis da Bíblia”, ainda em construção.
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As testemunhas de Jeová e os dispensacionalistas pré-tribulacionistas afirmam que os 144 mil descritos em Apocalipse 7:4-9 é um número literal de 144 mil pessoas. Para as testemunhas, estes 144 mil é o número total de pessoas que habitarão no Céu (ao passo em que as demais passarão a eternidade na terra), enquanto para os pré-tribulacionistas os 144 mil são judeus que estarão na terra enquanto a Igreja já terá sido arrebatada antes da grande tribulação. As duas vertentes apresentam erros escatológicos enormes, seja por desconsiderar o fato de que todos passarão a eternidade na nova terra e não no Céu[1], seja por inventar um arrebatamento secreto numa vinda invisível de Jesus, da qual a Bíblia jamais fala[2]. Mas estes assuntos já foram abordados apropriadamente em outras oportunidades, e por isso me limitarei aqui apenas ao ponto principal: se os 144 mil são um termo literal ou não.

Linha 1
Linha 2
Os 144 mil são um número literal de pessoas
Os 144 mil é um termo alegórico que representa totalidade
Em primeiro lugar, devemos considerar a natureza do livro onde isso se encontra. Tragicamente, alguns teólogos de linha mais fundamentalista têm a péssima tendência de interpretar o Apocalipse literalmente, exceto se houver algo ali que seja obviamente não-literal (como as sete cabeças de um dragão). Eu conheço vários que pensam que o “candelabro” e a “oliveira” de Apocalipse 11 são Enoque e Elias. Conheço outros que creem que a ferida que a besta sofreu (Ap.13:3) é uma ferida literal em uma pessoa física, do tipo quando alguém leva um tiro ou uma facada. Conheço outros que acham que os quatro seres viventes são quatro seres literais, um como o leão, outro como boi, outro como homem e outro como águia (Ap.4:7).

Infelizmente, eles lêem tudo no Apocalipse com uma lente literalista, e assim destroem e arruínam todo o sentido do que João escrevia, pois ele falava as coisas de forma simbólica ou figurada, cujo sentido maior deveria ser extraído do significado das alegorias. Quando você pega um livro fundamentalmente alegórico e o lê com óculos fundamentalista, tomando como literal aquilo que na verdade tem um significado oculto, você estraga todo o propósito de João ao escrever um livro daquela maneira.

Aqui não tenho disponibilidade para resumir o Apocalipse capítulo por capítulo, como já fiz em um artigo disponível na nota de rodapé deste livro, para quem se interessar em ler[3]. Mas basta uma leitura simples e de mente aberta ao livro do Apocalipse para perceber que o propósito era de falar verdades espirituais não na “superfície”, mas por “debaixo” dela. A Bíblia possui 65 livros de característica mais literal, e um último profético, com significados que não são encontrados por uma leitura no literal, mas por uma leitura daquilo que está por detrás do literal.

Diante disso, se alguém como o apóstolo Paulo estivesse escrevendo uma epístola doutrinária falando as coisas naturalmente e em meio a isso escrevesse sobre os “144 mil”, é lógico que isso deveria ser tomado literalmente. No entanto, alguém como João escrevendo um livro repleto de alegorias, simbologias e figuras de linguagem, onde nada é literal exceto se alguma coisa muito forte indicar isso, devemos entender que este número é simbólico, exceto se algo muito forte nos indicar que é literal. E quando entendemos a simbologia bíblica por detrás dos números, fica ainda mais patentemente óbvio de que não se trata de um número literal em um livro alegórico, mas de uma alegoria em um livro alegórico[4].

O número 144 é o resultado de 12x12. O número doze na Bíblia é o número que representa a completude. Foram doze as tribos de Israel, que simbolizavam a totalidade do povo de Deus no Antigo Testamento, e também doze os apóstolos, que simbolizavam a totalidade do povo de Deus no Novo Testamento. Era tão importante completar com o número doze que mesmo nas vezes onde há variações nas descrições das tribos de Israel ainda assim sempre terminava com doze, como vemos no quadro abaixo:

Gn 30
Gn 49
Nm 13
Dt 33
Js 13-21
Ez 48
Ap 7
Filhos de
Jacó
Bênção de
Jacó
Espias das
tribos
Bênção de
Moisés
Divisão da
terra
Divisão da
terra
144 mil
selados
Aser
Aser
Aser
Aser
Aser
Aser
Aser
Benjamim
Benjamim
Benjamim
Benjamim
Benjamim
Benjamim
Benjamim



Efraim
Efraim
Efraim
Efraim

Gade
Gade
Gade
Gade
Gade
Gade
Gade
Isaacar
Isaacar
Isaacar

Isaacar
Isaacar
Isaacar
José
José
José
José


José
Judá
Judá
Judá
Judá
Judá
Judá
Judá
Levi
Levi

Levi


Levi



Manassés
Manassés
Manassés
Manassés
Naftali
Naftali
Naftali
Naftali
Naftali
Naftali
Naftali
Rúben
Rúben
Rúben
Rúben
Rúben
Rúben
Rúben
Simeão
Simeão
Simeão

Simeão
Simeão
Simeão
Zebulom
Zebulom
Zebulom
Zebulom
Zebulom
Zebulom
Zebulom
Note que, mesmo nas vezes em que uma tribo não era citada, ainda assim o autor inspirado fazia questão de fechar com doze. É inegável que havia uma mensagem específica em torno do número doze, e que isso não é mera coincidência. No caso dos apóstolos, mesmo depois que Judas já tinha se suicidado, ainda assim Paulo fez questão de se referir ao grupo apostólico como “os doze” (1Co.15:5), e dias mais tarde eles escolheriam Matias no lugar de Judas, para fechar com doze (At.1:26).

Mas o caso do Apocalipse é ainda mais interessante, porque João não diz apenas “doze”. Ele multiplica o doze por doze, somando 144. E, mais impressionante ainda, após chegar ao número 144 ele novamente não pára por aí, mas multiplica por mil(!),chegando ao número completo de 144.000! Para qualquer intérprete honesto, qual é a mensagem que ele está deixando bastante evidente neste texto? De que o número dos “selados” se limita a 144.000 literalmente? É claro que não. Ele estava passando o sentido de totalidade. O “doze” já representa a completude, mas, para destacar ainda mais este fato, ele multiplica por mais doze. E como se isso não fosse o bastante, ele volta a multiplicar novamente, desta vez por mil. É a totalidade da totalidade, por assim dizer!

É por isso que logo no versículo seguinte ele expressa a mesma coisa, mas com outras palavras:

“Depois disso olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, diante do trono e do Cordeiro, com vestes brancas e segurando palmas. E clamavam em alta voz: ‘A salvação pertence ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro’” (Apocalipse 7:9-10)

Os literalistas e fundamentalistas geralmente costumam desassociar este verso de seu contexto, como se João de repente tivesse deixado de falar dos 144 mil e passasse a falar de um outro grupo totalmente distinto. Todavia, não é isso o que o contexto nos mostra. Os que são aqui citados são os mesmos “144 mil”, só que com outras palavras. Nos versos anteriores, João havia falado de uma enorme e incontável multidão de salvos através da linguagem simbólica de 144 mil (12x12x1000), e agora ele expressa a mesma coisa, mas através de uma linguagem diferente – uma “grande multidão que ninguém pode contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas”. Em outras palavras, nada mais era senão uma referência simbólica a todos os salvos, no período da grande tribulação.

Alguém poderia objetar, dizendo que João afirmou que se tratava de “todas as tribos de Israel” (Ap.7:4), o que leva a crer que só se trata de judeus. Não será preciso repetir novamente que o Apocalipse retrata as coisas de forma não-literal, e que a Igreja é o “Israel de Deus” (Gl.6:16), ou seja, aquilo que dá prosseguimento ao plano de Deus na terra, cujo pacto ou aliança havia sido inicialmente com Israel. Jesus, que viveu no final da antiga aliança, disse que Deus “arrendará a vinha a outros lavradores, que lhe dêem a sua parte no tempo da colheita” (Mt.21:41), e Paulo diz que a Igreja foi “enxertada” no lugar de Israel (Rm.11:19-20).

Se alguém não se satisfizer com essa explicação e ainda insistir em tomar a linguagem de “144 mil” literalmente, basta ver que na lista fornecida por João não aparece a tribo de Dã, que é citada em absolutamente todas as outras listas das tribos de Israel. E para piorar, a tribo de Manassés é contabilizada em separado da tribo de José, o que é impossível, já que Manassés era filho de José, e, portanto, qualquer um que fosse de Manassés já seria automaticamente de José também! Essa é a razão pela qual em todas as outras listas José é mencionado sem Manassés, ou Manassés sem José (e com Efraim, o outro filho de José).

A mensagem que João parece estar nos passando é claramente para não tomarmos isso em sentido literal, porque o sentido literal não tem o menor sentido! Em vez disso, devemos entender os 144 mil como uma representação simbólica de todo o povo de Deus, o qual obtém Sua proteção espiritual em meio à grande tribulação.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (www.lucasbanzoli.com)


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[4] Para os mais desavisados, isso não tem nada a ver com aderir ao “método alegórico”, que consiste em tomar qualquer parte da Bíblia como alegórica, em vez de literal. A esmagadora maioria dos teólogos de linha literal concorda que o Apocalipse é de linha alegórica, e isso não significa aderir ao método alegórico, mas somente dizer que a interpretação de um livro depende da natureza do mesmo. Em outras palavras, se a natureza do livro é fundamentalmente literal, as coisas devem ser interpretadas literalmente exceto se algo muito forte indicar o contrário. Da mesma forma, se a natureza de um livro é fundamentalmente alegórica, as coisas devem ser interpretadas alegoricamente exceto se algo muito forte indicar o contrário. É isso o que significa o método gramático-histórico, que não tem nada a ver com tomar tudo ao pé da letra independentemente do contexto, do teor ou da natureza de um texto!

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